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Compreendi

Descobertas em Angola três novas espécies de serpentes das casas Africanas

Descobertas em Angola três novas espécies de serpentes das casas Africanas


  • Um estudo recente do género de serpentes Boaedon, conhecidas como Cobras das Casas Africanas, realizado em Angola permitiu identificar três novas espécies para a ciência. 
  • Este trabalho, a ser publicado pela revista African Journal of Herpetology, foi desenvolvido por uma equipa de investigadores que inclui Luis Ceríaco, curador chefe do Museu de História Natural de Ciência da Universidade do Porto 
  • Usando exemplares coletados no terreno e espécimes armazenados em museus, e associando dados morfológicas a dados decorrentes de análises genéticas, foi possível rever o conhecimento acerca deste género de serpentes.

AS COBRAS DAS CASAS AFRICANAS 
As serpentes do género Boaedon, conhecidas como Cobras das Casas Africanas (ou Serpentes Castanhas), são das serpentes mais abundantes no continente Africano, tendo recebido este nome por serem frequentemente encontradas em casas. São totalmente inofensivas para o ser humano, alimentando-se de ratos e osgas. Como caraterística comum, apresentam uma lista esbranquiçada no focinho, que lhes passa pelos olhos, fazendo lembrar uma mascarilha.
Até ao momento, eram conhecidas apenas quatro espécies deste género em Angola - Boaedon angolensis, B.fuliginosus, B. olivaceus e B. variegatus.
A história deste género, que começou a ser escrita em meados do século XIX, é confusa e problemática, representando um desafio para a comunidade científica.


CONHECER O PASSADO E O PRESENTE DAS SERPENTES DAS CASAS AFRICANAS PARA PRESERVAR O SEU FUTURO
Com vista a compreender a história taxonómica e nomenclatura das Serpentes das Casas Africanas, uma equipa de investigação internacional, que integra Luís Ceriaco, curador-chefe do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP) como autor correspondente, levou a cabo um estudo aprofundado das serpentes do género Boaedon, desenvolvido em colaboração com o Instituto Nacional da Biodiversidade e Áreas de Conservação (INBAC) do Ministério do Ambiente de Angola. 
Recorrendo a espécimes coletados no terreno no contexto de expedições realizadas por todo o país, bem como à revisão de exemplares históricos armazenados em museus de história natural europeus, norte americanos e angolanos, e combinando o uso de marcadores moleculares (genes mitocondriais e nucleares) com dados morfológicos, esta equipa chegou à conclusão de que em vez das quatro espécies deste género que se pensava existir em Angola, existem, na realidade, nove espécies. Para além das quatro já referidas, existem duas que apenas eram conhecidas no Congo – B. virgatus, B. mentalis, e três que, para além de novas para Angola, são novas para a ciência – B. bocagei sp. nov., B. branchi sp. nov. e B. fradei sp. nov.  
Estes resultados acabam de ser publicados na revista científica African Journal of Herpetology.

AS NOVAS ESPÉCIES 
As três novas espécies identificadas como resultado deste estudo integrado têm características muito interessantes.
A espécie B. bocagei, que recebe este nome em honra de José Vicente Barbosa du Bocage, fundador dos estudos herpetológicos em Angola, é endémica da região de Luanda, o que, como nota Luís Ceríaco, "não deixa de ser surpreendente. Afinal, numa metrópole com milhões de habitantes, ainda é possível descobrir espécies novas para a ciência!” Trata-se de um animal de cor alaranjada, com duas listas brancas grossas a fazer de "mascarilha” na zona dos olhos. Os espécimes tipo incluem espécimes coletados pela equipa de Luís Ceríaco em 2016, no Parque Nacional da Kissama, mas também espécimes coletados pelo naturalista Português Francisco Newton em 1903, no contexto de uma expedição feita para a Academia Politécnica do Porto (percursora da atual Universidade do Porto) e ainda hoje presentes nas coleções do MHNC-UP. Segundo Luís, "a possibilidade de se recorrer a exemplares armazenados em museus para este tipo de estudos, demonstra de forma inequívoca a importância das coleções de história natural para o estudo atual da biodiversidade”.
Por sua vez, a espécie B. branchi é endémica da província do Cuando Cubango, no sudoeste de Angola, e foi coletada durante as expedições promovidas pela National Geographic ao Okavango. O seu nome é dedicado ao herpetólogo Sul Africano William R. Branch, que faleceu em 2018, e que, nos últimos anos, tinha vindo a dedicar-se às investigações em Angola.
Por fim, a espécie B. fradei é endémica do sudoeste de Angola, mas também de parte da Zâmbia e da República Democrática do Congo. A atribuição do seu nome é dedicada ao zoólogo Português Fernando Frade, antigo diretor do Centro de Zoologia do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), e responsável pela coleta de alguns dos espécimes que foram usados para a descrição da espécie, e que se encontram hoje nas coleções do IICT no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC). Portanto, mais uma vez assistimos ao potencial das coleções de história natural para revelar os segredos do passado das espécies que, no pressente, conhecemos. 

AS SURPRESAS QUE NÃO SE ESGOTAM: UM ANO DE DESCOBERTAS 
As três novas espécies descritas para Angola neste artigo somam-se a duas osgas (Hemidactylus nzingae e Hemidactylus paivae) e à lagartixa de olhos de serpente (Panaspis mocamedensis), destacada num artigo da National Geographic, já descritas no inicio deste ano. 
Luís Ceríaco refere que "espera-se ainda que até ao final do ano sejam descritas pelo menos mais seis espécies de répteis e anfíbios, que já se encontram em processo de publicação, e que se juntam a muitas outras cuja descrição se encontra neste momento em processo de escrita. As coleções do MHNC-UP albergam algumas destas novas espécies”.

Artigo original:
Hallermann J, Ceríaco LMP, Schmitz A, Ernst R, Conradie W, Verburgt L, Marques MP, Bauer AM (2020) A review of the Angolan House snakes, genus Boaedon Duméril, Bibron and Duméril (1854) (Serpentes: Lamprophiidae), with description of three new species in the Boaedon fuliginosus (Boie, 1827) species complex. African Journal of Herpetology. Doi: 10.1080/21564574.2020.1777470


Imagens para divulgação disponíveis aqui. Legendas e créditos: 
Imagem 1. Serpente Castanha de Bocage, Boaedon bocagei, Parque Nacional da Kissama | Créditos de imagem: Luis Ceríaco
Imagem 2. Serpente Castanha de Branch, Boaedon branchi, Província do Cuando Cubango | Créditos de imagem: William R. Branch
Imagem 3. Serpente Castanha de Frade, Boaedon fradei, Província do Moxico | Créditos de imagem: Werner Conradie
Imagem 4. Luís Ceríaco na reserva de zoologia do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, com um dos espécimes tipo da Serpente Castanha de Bocage, Boaedon bocagei Créditos: MHNC-UP


Para mais informação, contactar: Maria João Fonseca | mjfonseca@mhnc.up.pt | 91 650 4014