FICÇÕES BOTÂNICAS

Em Ficções Botânicas os espécimes e documentos do Herbário do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto são um pretexto para imaginar o que terá acontecido no passado. Com fragmentos de informação indiscreta existente no herbário sobre coletores e aficionados da botânica, imaginam-se cartas que se leem sem nunca por eles terem sido escritas.

SO1E01. O Narciso de Pandora Em 1886, Edwin John Johnston escreveria a Alfred Tait sobre a flora que ia encontrando nos seus passeios nas cercanias do Porto, destacando particularmente um narciso, flor que, então, fazia as delícias dos horticultores. Estas são as possíveis palavras da mensagem trocada entre estes dois ilustres botânicos amadores, responsáveis pela descoberta e divulgação da flora da cidade do Porto e dos seus arredores. Com Cristiana Vieira, Curadora do Herbário do MHNC-UP, e Manuel Miranda Fernandes, investigador do Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território – FLUP.

Referências bibliográficas: Aedo, Carlos (2010). Tipificación de los nombres aceptados de las especies ibéricas del género Narcissus (Amaryllidaceae). Acta Botanica Malacitana, 35, 133-142; Fernandes, A. (1946). Sobre a origem de “Narcissus Johnstonii Pugsley”. In Anales del Jardín Botánico de Madrid (Vol. 6, No. 1, pp. 145-158). Real Jardín Botánico.

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S01E02. A muscínea de Arapiles Em 1915, António Luís Machado Guimarães, professor de Zoologia na recém-criada Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e filho do professor catedrático da Universidade de Coimbra, Bernardino Machado, que viria a ser Presidente da República, escreve ao padre da Companhia de Jesus e distinto briólogo Alphonse Luisier, exilado em Espanha, seu mentor na área da briologia. Na sua carta, menciona a flora do Douro Superior que encontrara numa excursão com Gonçalo Sampaio, outro ilustre botânico da Universidade do Porto e amigo comum dos correspondentes. Estas são as possíveis palavras da mensagem trocada entre estes dois notáveis botânicos, pioneiros na descoberta e divulgação da brioflora do nosso país.

Referências Bibliográficas: Benoliel, J. (1910) Os jesuítas em Portugal. Ilustração Portuguesa nº 246: 582- 588; Biel, E. (2016) O Douro do Vinho na Obra do Fotógrafo Emílio Biel. In-Libris. 60.x40 cm. V-70-I fls; Luisier, A. SJ (1913) Le Genre Triquetrela en Europe. Brotéria-Botânica XI: 135-138; Luisier, A. SJ (1915) “Fragments de Bryologie Ibérique. 6. Sur la distribution géographique de Triquetrela arapilensis Luis”. Brotéria-Botânica, XIII: 150-151; Machado, A. (1913) Muscíneas do Minho. Contribuição para o seu estudo. Famalicão; Machado, A. (1915) Uma excursão briológica ao Alto DouroAnn. Acad. Polyt. Porto 10: 170-175; Romeiras, F. M. (2015) A constituição e o percurso das colecções científicas dos jesuítas exilados pela 1ª República: o caso de Carlos Zimmermann SJ (1871-1950). Archivum Historicum Societatis Iesu, 84(168).

Música: Erik Satie, Embryons Desséchés 1 e 3 (1913), Sequência MIDI de Š Dmitri Bachovich, http://www.kunstderfuge.com

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S01E03. Plantas que comem homens e mulheres Afinal, que misteriosa planta interessa tanto a literata Carolina Michaëlis como o botânico Gonçalo Sampaio? E quem é a jovem Sara Cabral Ferreira, cuja existência se encontra ameaçada? Ouça esta missiva sonora que retrata um pouco da vida portuense de há cem anos, ficcionada por Cristiana Vieira e Manuela Paulos a partir de elementos históricos e botânicos encontrados no Herbário do MHNC-UP. Locução de Cristiana Vieira e Anabela Santos.

Referências bibliográficas: Brotero, Félix de Avellar (1804). Flora lusitanica: seu plantarum, quae in Lusitania vel sponte crescunt, vel frequentius coluntur, ex florum praesertim sexubus systematice distributarum, synopsis. 2 vols. Olissipone: ex typographia regia; Darwin, Charles (1875). Insectivorous plants. London: John Murray; Mateus, Simão & Vieira, Cristiana (2018). Life Canvas: Biological Illustration as Biographical Evidence of Illustrators’ and Researchers’ Careers. MIDAS 9: 1-13; Paulos, Manuela (2018). Contributo para a Conservação Preventiva de Conjunto de Desenhos Científicos de Augusto Nobre do Acervo da BPMP. Faculdade de Letras da Universidade do Porto; Ramos, Luís A. De Oliveira (Dir.) (1995). História do Porto. 2.ª Edição. Porto Editora; Sampaio, Gonçalo (1949). Iconografia Selecta da Flora Portuguesa. Lisboa: Instituto para a Alta Cultura.

Música: Claude Debussy, Arabesque n.º 1 e (fantasia minimalista sobre) excerto de Pagodes (de Estampes), sequências MIDI de Š Katsuhiro Oguri, http://www.kunstderfuge.com.

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S01E04. A árvore mais silvestre Em 1916, Tude Martins de Sousa, um regente florestal rendido ao amor pela Árvore mas atormentado por dúvidas sobre a origem do pinheiro-silvestre encontrado no Gerês, escreve a Gonçalo Sampaio, botânico e professor, seu tutor no estudo de alguns dos mistérios vegetais da Serra do Gerês, onde havia trabalhado nos onze anos anteriores. Estas são as possíveis palavras da carta trocada entre estas duas notáveis personalidades, que anteviram a criação de um Parque Nacional no Gerês mais de meio século antes da sua concretização. Com Cristiana Vieira, Curadora do Herbário do MHNC-UP, e Manuel Miranda Fernandes, investigador do Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território – FLUP.

Referências Bibliográficas: Fernandes, M. M., Bento, J., & Devy-Vareta, N. (2015). Aspetos biogeográficos e paleoambientais de uma população finícola de Pinus sylvestris L. na serra do Gerês (NW Portugal). GOT – Revista de Geografia e Ordenamento do Território, 7, 159-181. doi:dx.doi.org/10.17127/got/2015.7.007; Silva, J. B. A. (1815). Memoria sobre a necessidade e utilidades do plantio de novos bosques em Portugal, particularmente de pinhaes nos areaes de beira-mar; seu methodo de sementeira, costeamento e administração. Lisboa, Academia Real das Sciencias, 187 p.; Sousa, T. M. (1909). Serra do Gerez. Estudos – Aspectos – Paizagens. Porto, Livraria Chardron, 1909, pp. 109-110; Sousa, T. M. (1912). A Árvore. Leituras Florestais para Crianças / Notas para Criar, Desenvolver e Fomentar o Amor pelas Árvores e pela Montanha. Porto, Livraria Chardron, 200 p.; Sousa, T. M. (1918). O pinheiro silvestre de Portugal. Problema de arqueologia e investigação apresentado a Conferencia Florestal. Boletim da Secretaria de Estado da Agricultura 1: 65-71.; Sousa, T. M. (1919). Conferência Florestal de 1916. Excursões dos conferentes. Lisboa, Separata d’A Voz d’O Lavrador, La Becarre, 8 p.; Sousa, T. M. (1926). Mata do Gerês. Subsídios para uma Monografia Florestal. Coimbra, Separata d’A Voz do Lavrador, Imprensa da Universidade, 253 p.

Música: Bela Bartók, Danças Populares Romenas (1. Bot tánc / Jocul cu bâtă, 3. Topogó / Pe loc), sequências MIDI de Ramón Pajares, http://www.kunstderfuge.com

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5. A ilha-hospital Tuberculoso, o Barão de Castelo de Paiva refugiou-se, como aliás muitos dos seus contemporâneos oitocentistas, na ilha da Madeira, cujo ar era aconselhado para quem sofria dessa doença pulmonar. Imaginamo-lo hoje como um naturalista apaixonado e irrequieto, a quem a tísica não impedirá a exploração das ilhas da Macaronésia, contribuindo para o conhecimento científico das espécies botânicas e zoológicas desta região, com o grato reconhecimento dos seus pares. Estamos exatamente no período em que cientistas pioneiros – entre os quais Charles Darwin – tentavam compreender a diversidade do mundo vivo através da minuciosa observação e classificação das espécies.

O escritor Júlio Dinis, que morrerá novo da mesma doença, também conheceu António Castelo de Paiva, indubitavelmente uma personalidade generosa que, depois de uma crise de consciência, renega um passado ateu para descobrir a presença de Deus na natureza que observa. É a relação entre o reputado académico e naturalista e o jovem médico e escritor que aqui imaginamos através de uma carta ficcionada. Texto de Cristiana Vieira.

Música – excertos de: Fryderyk Chopin, Prelúdio Op. 28. Sequência MIDI de Ron Lubetsky, http://www.kunstderfuge.com

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